Uma
das fazendas, localizada na estrada das boiadas, três
léguas ao sul do arraial de São José das Itapororocas,
chamava-se Santana dos Olhos d'Água. Ela é de particular
interesse, porque se tornou o sítio da presente cidade
de Feira de Santana. Com quase uma légua de comprimento
e meia légua de largura, Santana dos Olhos d'Água
era conhecida como uma grande propriedade nessa área.
Pertencia ao português Domingos Barbosa de Araújo
e à sua espôsa Ana Brandoa, que nela se havia instalado
nos princípios do século dezoito. De acôrdo com a
tradição corrente em Feira de Santana, Domingos e
Ana Brandoa constituíam um casal virtuoso, amado,
e admirado por todos que o conheciam. Bons cristãos,
construíram uma capela próxima da casa de residência,
dedicada a Santana e a São Domingos. A devoção era
tal que, quando faleceram em 1833, toda a fazenda
foi considerada propriedade da capela, não podendo
ser dividida nem vendida.
Algum tempo depois da construção da capela,
tornou-se ela um ponto de encontro para o povo do
distrito, que aí se reunia para fazer orações, visitas
e negócios. Dessa maneira, a pouco e pouco se ia desenvolvendo
uma feira periódica em Santana dos Olhos d'Água. A
feira, que teve início por volta de 1840, deu o seu
nome à atual Feira de Santana. Conhecida a princípio
como a feira de Santana dos Olhos D'Água, depois se
chamou simplesmente Feira de Santana. Uma vez localizada,
a feira tornou-se uma parte da vida econômica e social
de toda a circunvizinhança e suficientemente importante
para ser considerada um arraial florescente junto
à capela de Santana dos Olhos d'Água.
Desenvolvimento
A
Bahia, por causa de sua formação geográfica característica,
divide-se em duas regiões distintas e desiguais. A
primeira é a estreita planície costeira, ou seja uma
área agrícola bastante rica, onde caem pesadas chuvas
no inverno. Este cinturão tropical estende-se ao longo
da orla marítima, de norte a sul e varia em largura
de dez a cinquenta milhas. Conquanto compreenda somente
uma pequena fração da área total da Bahia, contém
mais do que uma quarta parte da população do Estado,
a maioria da qual vive na cidade de Salvador (capital
do Estado) e nos municípios ao redor da baía de Todos
os Santos. Essa pequena área domina o Estado, econômica,
política e socialmente.
A segunda das duas regiões da Bahia é
o sertão, um vasto planalto semi-árido que cobre a
maior parte do interior do Estado. É uma terra de
sêcas periódicas, de invernos frios, compridos e sem
chuva, de verões quentes, apenas interrompidos por
trovoadas ocasionais. A economia do sertão baseia-se,
especialmente, na criação de gado. Nestas circunstâncias
não é de estranhar que haja poucas grandes cidades
em toda a região.
Feira
de Santana localiza-se favoravelmente entre o sertão
e a costa, a mais ou menos 108 quilômetros da cidade
do Salvador, utilizando-se a rodovia federal BR-324.
Feira de Santana está numa elevação de 256 metros
(aproximadamente 800 pés) situa-se numa porção de
Planalto interior que alcança quase até a baía de
Todos os Santos. Por outro lado, os vales dos rios
Pojuca e Jacuípe, que atravessam o município a leste
e a oeste, respectivamente, da cidade, são projeções,
para o interior, dos solos profundos e ricos da planície
costeira. Situação semelhante observa-se em relação
às chuvas. Os padrões da região costeira e do interior
modificaram-se para formar um terceiro tipo de Feira
de Santana. A não ser durante os anos de sêca, o município
tanto é beneficiado com as chuvas moderadas do inverno,
vindas do oceano Atlântico, como pelas trovoadas de
verão, que se origina no sertão.
A posição geográfica de Feira de Santana,
a meio caminho entre a costa e o interior, reflete-se
na economia do município. Tal como no sertão propriamente
dito, a criação de gado está grandemente desenvolvida
e por muitas décadas a cidade sustentou a fama de
uma das mais concorridas feiras de negócios de gado
no Brasil. Ao mesmo tempo, a combinação da topografia
típica, com diferentes solos e chuvas moderadas permitiu
uma ampla variedade de produção agrícola tropical
e semi-tropical, em Feira de Santana. A população
crescente no município exige um consumo local cada
vez mais pronunciado de gado e de produtos agrícolas,
enquanto a proximidade das cidades costeiras assegura
aos criadores e agricultores um mercado imediato para
os excedentes.
Conquanto
uma parte considerável da sua prosperidade seja uma
consequência do clima favorável, Feira de Santana
deve a importância presente, em razoável proporção,
à posição estratégica, visto que se localiza como
a principal cidade na estrada-tronco que liga a Capital
ao interior. Desde os dias pioneiros dos primeiros
estabelecimentos da Bahia, a economia do Estado se
orientou para a cidade de Salvador. Por ter um grande
pôrto, Salvador foi e é o principal mercado para os
produtos do sertão, bem como de lá procedem as mercadorias
de fabricação nacional ou estrangeira. E desde que
cinco das seis rodovias principais entre a cidade
de Salvador e o sertão passam por Feira de Santana,
também passa através do município o grande volume
de tráfego entre o interior e a costa.
Feira de Santana é muito mais do que
um pouso nas estradas da Bahia. Desde os tempos coloniais
tornou-se conhecida como um entrepôsto comercial de
vida própria. As atividades comerciais cresceram consideravelmente
em Feira de Santana, e por mais de um século a cidade
gozou da reputação de empório líder do sertão baiano.
Como tal, há muito tempo é o ponto de convergência
de quase todas as matérias-primas embarcadas do interior
para a metrópole, bem como o mercado principal e o
mais importante centro de distribuição para os produtos
provenientes da Capital. Essa atividade comercial
verifica-se não somente pelo grande número e pela
variedade de estabelecimentos comerciais localizados
na cidade, como também pelo volume de negócios pecuários
e agrícolas que realizam-se na feira semanal. Conquanto
a feira se instalasse, originariamente, para a venda
ou troca de mercadorias produzidas dentro do município,
já em 1950 era conhecida em todo o nordeste do Brasil.
Os compradores viajavam dos municípios circunvizinhos
e da costa para a aquisição dos artigos produzidos
em regiões distintas da Bahia e dos outros estados.
Já em 1950, Feira de Santana era um mercado importante
para os produtos agrícolas e pastoris, do interior.
Uma nova fase surgira com rápida expansão dos processos
industriais no município, desde o início da Segunda
Guerra Mundial. Na cidade, o número de estabelecimentos
para o beneficiamento do fumo, do algodão e dos couros
e o aproveitamento da carne e dos gêneros alimentícios
aumentara de mais de cinco vezes, entre 1940 e 1950.
Em todos os anos, somente a cidade de Salvador excedia
Feira de Santana em produção industrial.
Do que precede é evidente que a economia
de Feira de Santana está firmemente fundada na pecuária,
na agricultura, no comércio e na industria. Tal situação
é notável na Bahia, onde a maioria das regiões sofre
os efeitos de uma longa tradição de monocultura, derivando
suas rendas de um único produto. Esse sistema está
de tal modo espalhado na Bahia que de todos os municípios
do estado, somente o da cidade de Salvador terá a
sua economia mais variada do que a de Feira de Santana.
A natureza complexa da economia municipal, todavia,
não se deve à previsão do povo de Feira de Santana,
mas, de fato, à feliz situação geográfica do município,
na convergência das estradas na Bahia.
Em menos de um século e meio, Feira de
Santana transformou-se de região pastoril, quase desconhecida,
de escassa população, numa das comunidades mais ricas
e mais densamente povoadas do sertão baiano. Essa
importância explica-se pela feliz combinação de fatores
geográficos e humanos que fazem de Feira de Santana
a "Princesa do Sertão".